Memoria eterna
- Beatriz De Sousa

- 18 janv.
- 2 min de lecture
Ninguém nos ensina a perder.Muito menos a perder alguém que era casa.
Dizem que avós são como pais.Mas ele era mais.Era presença.Era luz que não fazia barulho, mas iluminava tudo.
Ele ia buscá‑lo à escola.E talvez ninguém entendesse o tamanho disso.Mas havia um mundo inteiro naquele gesto.Enquanto ele estava ali, nada ameaçava.O tempo andava mais devagar.A infância estava segura.
Havia pão.Havia tulicrem.Ou melhor - tulicrem com pão.Ele fazia questão de corrigir.Partia ao meio.Mandava comer as duas metades.“Para comer tudo.”Como se estivesse ensinando, sem saber, a não desperdiçar o amor.
Ele ria.Ria fácil.Ria antes.Ria sem motivo.E quando ria, o mundo ficava mais leve, mesmo que ninguém soubesse explicar por quê.
Mas ele não se resumia ao que fazia.Ele era como estava.Inteiro.Atento.Presente.
Ele ouvia.De verdade.Ouvia com o corpo, com o olhar, com o tempo.Passava tempo conosco.E tempo, quando é dado assim, vira raiz.Vira memória que não morre.
Ele escolhia sempre a melhor fruta.Não por luxo.Por cuidado.Como quem diz: “vocês importam”.Como quem ama sem precisar dizer.
E agora ele não está mais aqui.
E dói de um jeito que não cabe no corpo.Porque não foi só um homem que partiu.Foi um jeito de amar.Foi uma alegria silenciosa.Foi a certeza de ser cuidado.
O silêncio agora é pesado.A casa sente.O ar sente.O coração sente.
Mas a memória não obedece à morte.O pão ainda cheira.O tulicrem ainda escorre.O riso ainda ecoa.A fruta ainda brilha na lembrança.
Tudo dói.Porque tudo foi real.
A morte levou o corpo.Mas não levou a luz.Ela ficou espalhada em quem o amou.E é por isso que sangra.Porque amor de verdade não desaparece -ele permanece doendo.
Talvez seja isso a memória eterna:não seguir em frente intacto.Mas carregar para sempre, no peito aberto,aquilo que nos ensinou a amar.
Em memória de Sr. José Filipe Mendes dos Santos.
marisoleneeee
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